“Os pais podem identificar que a criança já passou do limite suportável quando ela vira um menino que tem um comprometimento na vida social, ou porque ele não vai na casa dos amigos, porque tem medo de se afastar dos pais, ou tem medo de ficar longe e que algo possa acontecer com o pai ou a mãe”, explica o psiquiatra da Infância e Adolescência da Santa Casa do Rio de Janeiro, Fabio Barbirato.

Foi essa dificuldade que levou as quatro meninas à Santa Casa do Rio de Janeiro. Elas não conseguiam ficar longe dos pais. O que elas sentiam era mais que ansiedade: já era um transtorno. Elas relataram o seu drama.

Para a pequena bailarina Thais Lavigne, de 12 anos, a vida se resume a uma palavra: dança. Thais quer se tornar uma profissional e viver nos palcos. Mas a menina talentosa tem o seu limite: onde encontrar coragem para enfrentar o julgamento do público?

“Me deixa ansiosa a apresentação de balé, quando eu vou disputar com outras meninas algum prêmio, e também as provas”, afirma Thaís.

O medo de Larissa Gomes é outro. Ainda pequena, aos 10 anos, ela já cuidava da irmã mais nova quando a mãe saía para trabalhar. Amadureceu antes da hora. Passou a se sentir responsável por toda a família.

“Fico preocupada quando a minha mãe sai. Fico preocupada se vai acontecer uma coisa com ela. Na maioria dos dias, é assim”, explica Larissa.

“Ela toma o meu lugar. Ela não parece minha filha. Parece a minha mãe”, compara a cozinheira Mônica Gomes Lessa, mãe de Larissa.

O fantasma que habita as noites de Larissa Campos é a insônia. Dois anos em tratamento e ela ainda não venceu a ansiedade que a deixa em estado de alerta permanente.

“Tenho muito medo de dormir sozinha, do que pode acontecer quando eu estiver dormindo. Pode acontecer uma tragédia quando eu estiver dormindo”, diz Larissa.

A menor das quatro é Gabriele Rodolfo, uma menina de aparência alegre, que ao primeiro olhar parece se divertir com outras crianças. Adora estudar em casa, mas na escola a história é outra.

“Começou ânsia de vômito nela, o choro e aquele nervosismo todo. Eu pensava até que era manha dela”, relata a mãe de Gabriele, Fátima Fernandes Rodolfo.

Os pais se separaram. A menina trocou de escola. Foram dois traumas que mudaram o comportamento de Gabriele. A reação foi tão grande que ela ficou todo o ano passado fora do colégio. Para se equilibrar, tomou medicamentos controlados que baixavam a ansiedade. O consumo de remédios de tarja preta entre as crianças brasileiras é um dos maiores do mundo.

O uso do metilfenidato, por exemplo, indicado para crianças com déficit de atenção e hiperatividade, só é menor que nos Estados Unidos, o país que mais consome o medicamento. É uma prática condenada pela pediatra e pesquisadora Maria Aparecida Affonso Moysés, professora da Unicamp,

“Por qualquer motivo, qualquer dificuldade que se enfrente na vida, isso tem sido diagnosticado como doença, um transtorno, um distúrbio, e se dá o remédio, com todos os efeitos colaterais e as reações adversas, que não são poucas. Não são drogas seguras, ao contrário de tudo que se fala”, alerta Maria Aparecida.

Na Santa Casa, onde as meninas se encontram com psicólogas, Gabriele foi orientada a abandonar o remédio e a se tratar somente com a psicoterapia. Ela tem sessões exclusivas para as mães, que descobrem que as filhas podem estar herdando traços familiares.

“Eu vejo a Thais em mim quando eu era criança. Eu era assim, do jeito dela, me preocupava com tudo. Quando a minha mãe saía para a rua, eu ficava com medo: será que minha mãe vai voltar?”, lembra a mãe de Thaís, Célia Santos Lavigne.

“Se ela vai para o pai dela de manhã, dá uns dez minutinhos e eu pergunto como ela está. Ela responde: ‘Mãe. eu já falei que eu estou bem. Nossa, a senhora é muito chata’”, diz outra mãe.

Todas essas mães concordam que a ansiedade delas se transferiu para as filhas.

“Já aconteceu várias vezes de encaminhar também a mãe para tratamento”, afirma a psicóloga Vera Lúcia de Carvalho França, da Santa Casa do Rio de Janeiro.

Será que a ansiedade herdada pelos adolescentes vem só daqueles pais que também são ansiosos? Uma pesquisa feita com adolescentes estudou a maneira com que eles se relacionam com os pais. O resultado foi surpreendente.

A psicóloga Lídia Weber, da UFPR, coordenou a pesquisa com 250 adolescentes de 12 e 13 anos. Um em cada quatro apresentou sinais de ansiedade. No cruzamento com o perfil dos pais, o resultado mostrou que apenas 5% dos adolescentes com sinais de ansiedade disseram ter pais participativos.

“Pai e mãe não basta ficar só tranquilinho. Tem que mostrar atitudes positivas um com o outro. Elogiar e mostrar que valoriza”, assegura Lídia.

Pais muito bonzinhos ou rigorosos demais provocam insegurança nos filhos, de acordo com a pesquisa. Ao todo, 22% dos entrevistados tinham pais com esse tipo de perfil.

“O que às vezes os pais fazem é não escutarem os filhos. Então vem a menina e diz que na festa de ontem tinha champanhe. A mãe já começa a brigar. Proíbe a filha de voltar à festa. Mas a menina nem falou nada. Só falou que tinha champanhe”, exemplifica a psicóloga.

Os pais chamados de negligentes, aqueles que ao mesmo tempo não dão regras e também não demonstram afeto, são de longe os que mais deixam os filhos ansiosos. Foram citados por 73% dos jovens com ansiedade.

“O mundo moderno exige demais de nós, informação de tudo que é lado. Nós temos que estar conectados, ligados, informados em todas as mídias possíveis. Então, isso gera ansiedade em todo mundo. No adolescente também”, acrescenta Lídia.

Essa semelhança de comportamentos entre pais e filhos é estudada no laboratório da PUC do Rio. Cientistas observam cobaias e constatam: as ratas ansiosas não são carinhosas com seus filhotes. São poucas lambidas e pouco aconchego. O resultado é que os ratinhos também crescem com ansiedade. Outra experiência foi colocar os filhotes mais tensos para conviver com as mães mais calmas.

“Esses animais são ansiosos porque nasceram assim ou se tornaram assim?”, pondera J. Landeira-Fernandez, professor da PUC-RJ e UNESA. “Os filhotes dessas mães ansiosas agora vão ser criados por mães que não são ansiosas e aí vamos ver que tipo de resultado vamos observar na idade adulta.”

Será que o resultado desse teste ajudará a entender o comportamento humano? O que já se sabe é que carinho e atenção são excelentes remédios - e sem efeito colateral.

“Eu acho que os pais e os profissionais precisam parar e reaprender a olhar e escutar as crianças, o que eles estão dizendo, por que ela está ansiosa, qual o conflito que ele está sofrendo. É isso que a gente tem que identificar, e ajudar a criança a enfrentar e resolver esse conflito, e não simplesmente sedar com a droga”, resume Maria Aparecida.