Desenvolvimento
1ª aula.

Comece a aula solicitando aos alunos a leitura rigorosa das reportagens publicadas pela revista Veja- "Você é normal?" e "No reino da mente americana". Peça à turma que identifique e destaque as principais ideias dos textos e, sobretudo, as passagens em que a questão da normalidade é discutida. Em seguida, promova uma discussão sobre o caráter desse conceito (O que é ser "normal"?), indagando se ele é objetivo e inquestionável ou se, ao contrário, é bastante discutível.

Aproveite as respostas fornecidas para comentar que o conceito de normalidade, como apontam os textos de Veja, tem uma história, seu significado não é o mesmo em todas as épocas e ele está relacionado, em sua origem, a um determinado ideal social: o de se configurar como seria o chamado "homem médio", cujo perfil seria estipulado mediante a aplicação de análises estatísticas.

Com base nessas informações, solicite aos alunos que encontrem nos textos as passagens que mostram como o ideal da "normalidade" pode ter favorecido enormemente o grau de controle social e também ter ajudado a provocar o aparecimento de efeitos sociais e políticos perversos em diferentes sociedades ao longo da história.

Explique também que o grande problema implicado no conceito de normalidade está relacionado à posição e o lugar social de quem define o que é ou não "normal": assim, quem detém o poder e controla os meios de comunicação tende a contar com grandes facilidades para impor à sociedade o que julga constituir o homem "normal".

Conclua o raciocínio mostrando que, por exemplo, na Alemanha nazista, o homem considerado normal era aquele capaz de ser submisso em relação à autoridade ou a quem estivesse em uma posição hierarquicamente superior a ele na escala social; em contrapartida, este homem deveria exigir dos subalternos a mesma submissão que ele próprio devotava a seus superiores. Nesse sentido, ele seria um condutor da autoridade e por isso, seria igualmente "normal" que ele denunciasse os próprios filhos ou amigos caso estes não devotassem o mesmo respeito pela autoridade ou apresentassem traços inconformistas. Para finalizar a aula, peça que os alunos respondam, como lição de casa, à pergunta "Você é normal?", com base nas discussões e nos textos analisados em sala.

2ª aula
Retome as discussões da aula anterior e indague aos alunos quais seriam as outras ideias centrais nos textos da revista Veja e que ainda não foram debatidas. Aproveite as respostas dos alunos para explicar que, assim como a ideia de normalidade, também a medicina tem uma história. Mostre que por essa razão ela experimentou alterações fundamentais em diferentes períodos, sofrendo bruscas mudanças - seja no tocante a sua organização, seja em relação às práticas médicas. Exemplifique, comentando que até meados da década de 1950 a medicina tinha como objetivo central a cura do doente particular, que deveria ser assistido integralmente pelo médico. Este seria, em geral, um profissional autônomo, liberal, capaz de tomar as decisões fundamentais em relação ao paciente e que deveria, por isso mesmo, ter sólida formação cultural. Tal médico seria hoje denominado de o "médico da família", que deveria assistir o doente em domicílio. Comente ainda que estes médicos não estavam diretamente subordinados aos ditames da indústria farmacêutica, por exemplo.

Explique também que a prática médica sofreu grande transformação a partir da década de 1990, em decorrência do acentuado desenvolvimento tecnológico oriundo da terceira revolução industrial, que propiciou à medicina a dependência de sofisticados aparelhos e de instrumentos especializados. Com isso, ela se tornou, além de tecnológica, informatizada e molecular.

Destaque como isso alterou a situação do médico, tornando-o dependente da concentração de enorme quantidade de aparelhos tecnológicos de alto custo, encontrados apenas nos grandes hospitais ou em centros cirúrgicos que, por sua vez, concentram o capital e o poder. Dessa maneira, o médico não apenas perdeu o controle e o poder sobre o paciente, como ficou subordinado aos ditames e necessidades econômicas dos hospitais, que passaram a ser geridos por administradores e economistas, tornando-se um ramo de negócios altamente lucrativo. Alguns médicos, aos poucos, deixam de ser profissionais liberais e autônomos para se tornarem assalariados, submissos às regras e imposições econômicas ditadas por essas organizações empresariais.

Explique ainda que essa mudança acarretou muitas outras consequências para a medicina: a organização empresarial tornou o acesso à saúde uma mercadoria cara. Os equipamentos ou instrumentos tecnológicos nem sempre estão disponíveis na rede de saúde pública. Além disso, esse modelo de organização e prática médica vinculou-se estreitamente aos interesses de outro ramo industrial que experimentou espetacular avanço após a década de 1970: a indústria farmacêutica, que produz incessantemente cada vez mais drogas destinadas aos mais variados usos medicinais.

Se por um lado a lógica empresarial que passa a guiar a prática médica parece "ruim" para a saúde da população, por outro lado, a evolução da pesquisa, a organização dos hospitais e os avanços tecnológicos permitiram aos médicos diagnosticar doenças raras e analisar cada uma das partes do corpo humano minuciosamente. A medicina mudou de orientação, passando a dar atenção ao pequeno, aos constituintes fundamentais do vivente, conhecendo em função dessa alteração novos ramos, como a neurociência ou a biologia molecular, além de pesquisas envolvendo as nanoestruturas cerebrais ou a herança genética.

Para finalizar, reserve alguns minutos para que os alunos debatam o assunto e registrem os principais pontos da discussão sobre as transformações sociais da medicina e da figura do médico em seus cadernos.

3ª aula
Relembre com os alunos a discussão da aula anterior, sobre as mudanças recentes na prática médica, e explique que as transformações apontadas atestam o vínculo entre a medicina e a sociedade, realçando que, na sociedade capitalista, como destaca Marshall Bermann comentando uma frase famosa de Marx, "tudo o que é sólido desmancha no ar". 
Isso decorreria da necessidade de tal sociedade revolucionar incessantemente seus meios de produção, com o objetivo de expandir suas atividades econômicas. Dessa maneira, nenhum ramo de negócio ou atividade, assim como nenhuma profissão, seria estável. Todas estariam permanentemente sujeitas a sofrer grandes mudanças ou mesmo tornarem-se obsoletas.

Tal dinamismo também afetaria as crenças, as ideias e as tradições, de modo que as maneiras de pensar, de sentir e de agir também estariam sujeitas a experimentar mudanças espetaculares. Além disso, comente que o capitalismo, por seu dinamismo e necessidade de expandir constantemente suas atividades em busca de mais lucro, tende a transformar tudo em mercadoria, estando sempre pronto para criar e desenvolver novos ramos de negócios.

Em seguida, pergunte aos alunos se eles concordam com as afirmações e se conseguem perceber as mudanças citadas na cidade onde vivem, por exemplo. 
Continue a sua explanação e lembre os alunos de que, em decorrência dessa característica fundamental do capitalismo, o aparecimento constante de novos aparelhos tecnológicos tende a revolucionar todas as atividades, inclusive a medicina. Comente que nesse setor os novos e sofisticados instrumentos de uso medicinal tendem fundamentalmente a transformá-la em um novo ramo de negócio.

Aponte que a adoção de tais aparelhos contribui para que a medicina adote novas visões e novas orientações, mesmo que com isso ela corra o risco de perder de vista o paciente individual e concreto, com seu sofrimento real. Comente que essa é uma tendência da medicina do século 21: ela tende à fragmentação, abandonando a visão do homem como uma totalidade.

Comente, também, que essas mudanças dinâmicas em muito contribuem para o aparecimento de um novo ramo de negócios médicos relacionados à psiquiatria ou à neurologia: o da medicalização das emoções e das fadigas sociais. Como a maior parcela da população experimenta cotidianamente condições negativas de trabalho e de existência e é obrigada a alcançar metas de produtividade que levam à fadiga, à exaustão psicológica, ao estresse, à sensação de infelicidade e ao medo, a medicina, apoiada pela indústria farmacêutica, encontrou nesse terreno a ocasião para se expandir. O tratamento dos sintomas das "doenças emocionais" - como a depressão, por exemplo - é uma das atividades mais rentáveis no mundo contemporâneo.

Pergunte aos alunos se eles conhecem casos de pessoas que já tenham passado por tratamentos de males como a depressão ou a hiperatividade. É bem provável que quase todos conheçam alguém e, eventualmente, você pode alunos com alguns desses problemas em sala. Estimule uma discussão a respeito dos avanços nos diagnósticos (que são positivos) X os exageros desses diagnósticos (quando momentos de tristeza são tratados como depressão ou quando o aluno bagunceiro é diagnosticado como hiperativo, por exemplo). Com base nas afirmações dos alunos, pergunte se eles consideram este tipo de medicina e os medicamentos utilizados para o tratamento dessas doenças como sendo uma espécie de "indústria da felicidade", que concorre com as ofertas tranquilizadoras da indústria cultural ou as complementa.

Comente que este pode ser um modo original que a sociedade capitalista encontrou para lidar com as angústias que fazem parte do nosso dia a dia e para resolver o problema clássico da adaptação social do indivíduo. As "drogas da felicidade" apaziguam.

Conte aos alunos que o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), citado em um dos textos deVeja, contribuiu decisivamente para o esclarecimento dessas questões. Suas pesquisas mostram que temos a tendência em nos enganarmos quando pensamos que a ciência encontra soluções para os problemas reais: ele demonstra que a ciência é poder, ou seja, que o saber constituído implica a possibilidade da construção de uma prática social legitima e respeitável destinada a punir, a vigiar ou a discriminar. Ao menos em seus primórdios, diz-se que a psiquiatria não nasceu para entender e esclarecer as lógicas delirantes, mas para puni-las e encarcerá-las.

Para finalizar, peça para que os alunos analisem a matéria de Veja intitulada "No reino da mente americana". Indague por que motivos os Estados Unidos produzem a maior parte das drogas da felicidade e realizam o maior número de pesquisas destinadas a investigar o funcionamento da mente ou o comportamento humano. Proponha aos alunos uma discussão sobre essa questão: os EUA buscariam uma hegemonia mundial nesse campo, complementando a conquista da hegemonia no controle do acesso mundial às fontes de petróleo e no controle das comunicações espaciais? É viável construir uma hegemonia mundial baseada no conhecimento e no controle das maneiras de pensar e de reagir dos indivíduos? Após a discussão, solicite a elaboração de uma dissertação sobre o assunto, como forma de fechar o debate das últimas aulas.

Avaliação
Para efetuar a avaliação, leve em conta os objetivos estabelecidos no início desta aula e os trabalhos apresentados. Verifique se os textos apresentam coerência na argumentação e no desenvolvimento das ideias; contemplam a discussão e a análise efetuadas em aula e revelam entendimento do assunto; apresentam exposição correta, sem erros ortográficos. Leve também em conta a participação dos alunos em sala. É importante que os estudantes desenvolvam uma visão crítica a respeito da chamada "indústria da felicidade" e de práticas médicas imprudentes, sem deixar de compreender que os avanços na medicina e na indústria farmacêuticas também trouxeram excelentes consequências para o diagnóstico e tratamento de inúmeras doenças.

Consultoria

Débora C. Carbalho.

Mestre e doutora em Sociologia pela FCL UNESP Araraquara. Professora adjunta de Sociologia da Universidade Federal de Lavras. Autora de livro didático de Sociologia.